Maratona de Sevilha: Si! Tu puedes!

- Si, tu puedes!; - Si, tu puedes!; - Si, tu puedes! ...
Não sei precisar o Km mas em determinado passo da Maratona de Sevilha uma multidão, em uníssono, animava assim os participantes, os 10.286 participantes na 34ª edição da sua Maratona disputada no domingo. Colossal! Uma bomba de motivação.
Eu era um deles, com o meu dorsal 4428, às 8 h 30 m da manhã (o equivalente às 7 h 30 portuguesas) iniciava a minha 11ª Maratona em estrada. A primeira grande conquista pessoal já estava alcançada: chegar à Partida! Sim, chegar à Partida numa Maratona não é tarefa fácil. São muitos os imponderáveis a ultrapassar. Na minha perspectiva racional correr não é desporto que se pratique sem uma cuidada preparação; correr uma Maratona devia ser vedado a quem não a respeitar e para ela não se prepare com o respeito que ela exige. Em 2017 falhara as duas a que me propusera: Sevilha e Lisboa. Pequenas lesões impediram cumprir o racional princípio, por isso optara por não alinhar.
Participar numa grande Maratona internacional é toda uma experiência de vida e um conjunto de rituais. É a referida preparação específica com a realização de corridas longas - para esta fiz 6 sozinho ou com a Vitorina -, é a viagem com amigos/colegas do clube, é o levantar dos dorsais e a pasta party, é a pequena sessão de meia horita da véspera para movimentar as pernas e dispersar os nervos, é o jantar da véspera repleto de gargalhadas, é o preparar do equipamento e de tudo o necessário para a participação, é o acordar às 4 h 30 da madrugada e às 5 h chegar ao restaurante de um hotel já com largas dezenas de outros concorrentes para um pequeno almoço que não pode ser frugal, é o transfer do Hotel para a região da Partida, é a ida a uma das dezenas de casa de banho disponíveis para ir o mais vazio possível e em estado de prontidão absoluta, é o frenesim da deslocação para o setor de partida já rodeado de milhares e milhares de outras pessoas vindas um pouco de todo o mundo para, neste dia, nesta hora e neste local, irem em conjunto sentir-se vivas - quase morrendo! - num evento com o qual sonharam e metodicamente prepararam ao longo de meses.
Em Sevilha 2018 cheguei à Partida. Em Sevilha tinha que chegar à Meta! Não começou exactamente bem a entrada para o cajone 3:15>3:30 que me era destinado de acordo com a marca que possuo. Era para ir de mãozinha dada com a Vitorina mas uma necessidade de última hora da parte dela fez-me ficar a secar à sua espera mais de um quarto de hora e a já não a encontrar no meio da turba ... a não ser na Meta ... à minha espera!
Comecei pois com cerca de 5000 concorrentes à minha frente mas a generosa avenida Carlos III que ladeia o Guadalquivir na ilha da Cartuja permitiu-me passar a Linha de Partida apenas 1 m 43 após o Tiro. Nada mau! Para mim o tempo que conta é o do meu STRAVA que equivale ao tempo de chip da Organização. Parto já em passo quase de ritmo de prova para um primeiro Km em 4.57. Tudo afinado. Basta seguir o plano e aqui começam os problemas. Não tinha grande plano. Era como me sentisse entre os 4.45 a 5 m o Km. Dei comigo entre os balões das 3 h 30 m e esse é o meu tempo de referência para esta provecta idade. Longe vão as 2 h 51 m dos 20 anos no Autódromo do Estoril, longe vai a inactividade forçada dos 23 aos 48!
Resolvi pois, em contexto, ir por ali assim. Não sabia se a Vitorina estava para a frente se estava para trás, não vislumbrava mais nenhum dos outros 8 lobos perdidos - encontrados!? - no imenso pelotão.
A Torre del Oro passa-se ao 6º Km e aí já transpirava grosso e já seguia a 4 m 44 s e pensava: está um excelente dia para correr, e um excelente dia para transpirar grosso. Muita humidade não joga bem com esforços prolongados. Impossível não ir cumprir a minha sina na Maratona. Mais isso seria 2 h à frente. No momento começava a sentir-me confortável e os Km escorregavam que nem manteiga. Aos 7 Km consigo descobrir a Almerinda e a Ana que foram apoiar o Velez e o Moisés e a todos - não é fácil encontrar os nossos entre milhares e milhares de pessoas que incentivam os corredores - e pergunto:
- A Vitorina?
Resposta: - Tchiii, vai muito à frente!
Eu a pensar que corria no estrangeiro mas na verdade face ao teor da resposta sai uma gargalhada geral entre os companheiros de ocasião no pelotão. Gozo. Lá expliquei rapidamente que era suposto ir de mãozinha dada mas que nos perdêramos à Partida. Pois, pois, terão pensado, outra mãozinha que não apanhes ... que essa já voou!
E voou a magana! Voou para RP de veterana (3 h 26 m 47 s) e um 6º lugar F50 entre 111 classificadas, 105ª entre 1168 mulheres, 2692º entre os cerca de 13.000 que se imaginaram na Meta inscrevendo-se no evento com a máxima categorização da IAAF (na verdade apenas 9494 dos inscritos terminaram a prova). Nunca a vi e confesso que ia preocupado numa primeira fase pois não era suposto ela andar tão rápido face às últimas provas que vinha fazendo, à fraca preparação que realizou e ao cansada que foi para a prova. Mas há ali uma campainha que toca quando a prova é importante. Tocou no dia do Trilho dos Reis, tocou no domingo e há-de ir tocando sempre que tocar.
A mim tocou-me passar à Meia em 1 h 41 m 33 s o que daria para 3 h 23 m 06 s se mantivesse o ritmo. Mantive-o até aos 25 Km (2 h 00 m 40 s) e até aos 30 Km (2 h 24 m 54 s, 2ª melhor marca pessoal de renascido das cinzas já lá vão quase 8 anos) mas depois foi o fadário de sempre! Vêm leve, levemente, vamos acreditando que talvez consigamos superá-las mas não dá.
Cãibras, as famigeradas cãibras. Eu tomo electrólitos, eu ingiro os geis a cada 45 minutos, eu bebo água mais que suficiente que acabo até a mijar branco mas chegado às 2 h 30 m de esforço contínuo só lá vai no pára-arranca e às chapadas aos músculos das pernas que nem um velocista antes da partida dos 100 m.
Nesta edição houve algumas pequenas modificações no percurso e a multidão é praticamente ininterrupta nos últimos 10 Km. Mas não estão lá de mãos nos bolsos ... nem calados! Incentivam verdadeiramente cada um de nós como se estivessem a viver com mais intensidade que nós próprios o nosso desafio! São cartazes, são bandeiras, são mãozinhas de criança estendidas para que as toquemos. As estatísticas da prova dizem que desistiram 28 pessoas entre os 40 Km e os 42, 195 Km. Como é possível? Têm que ter chegado ao limite dos limites. Aquela gente incentiva-nos como se o resto da nossa vida fosse depender de chegar à Meta e receber aquela Medalha. E a chegada à Meta?
Uma entrada no estádio olímpico pela porta da Maratona pejado de público e uma derradeira volta à pista com o primeiro anel de bancada também repleto. O que sofri nos últimos 10 Km de pára-arranca vale o momento. Confesso que até me apeteceu abrandar para o viver. Uma ânsia de terminar o sofrimento e uma ânsia de prolongar o momento. Terminei em 3 h 33 m  49 s, 3554º das 9494 pessoas que terminaram, apesar de tudo um registo que me satisfaz.
Após a prova abandonar o estádio é também algo épico. Corredor subterrâneo largo atulhado de gente feliz e exausta. Lá vi a minha Maria que tinha chegado 8 minutos antes e lá estava o Pedro a tirar-me uma foto ele que me passara nos Km finais e nem se apercebera e nem eu me apercebera. Quando o alcançara, aos 10 Km, parecia-me ir já um pouco ofegante mas a verdade é que, dos 9 lobos presentes, terá feito a prova mais regular e isto acaba aos 42 não acaba aos 10.
No final a via sacra para regressar ao Hotel. Reunir todos, cambalear, gemer, falar em atropelo, cada um com a sua importante história para contar. Tomar banho e regressar que estes passeios de passeio têm pouco. Convívio fantástico da alcateia, 5 famílias a partilhar a paixão pela corrida e a partilhar o gosto pela vida.


Aos 41 Km (foto de Cristina Coelho)
Perto da Meta (foto de Cristina Coelho)
Atletas e famílias, fantástico convívio.
Duas medalhas de "ouro" cá patra casa!
Jantar de véspera, sem McChuffe mas com CruzCampo! ;)
Reta da Partida já a menos 5' o Km (foto de Fernanda Silva)
A desfrutar
Na Plaza de España
A Maria a mostrar aos "netos" como é que se faz! ;)
Extenuado mas feliz cheguei à Meta!
A Vitorina na Plaza de España
Na Plaza de España as cãibras já atacavam.
Apoio contínuo até à Meta
Feita! 3:33 :)
Todos os lobos chegaram à Meta!
Conclusão: si, se puede!, e isso é a única coisa que verdadeiramente importa. Tinha corrido 2 maratonas aos 20 anos. Durante 30 fui ficando totalmente convencido que tinha sido uma boa, por irrepetível, decisão o de o fazer tão cedo na vida e agora, após os 50, já somei mais 8! Venha a próxima. 42 ou 30 + 12, o que interessa!? Somam todas o mesmo! 42.195 m de épico sofrimento e êxtase.
30 Km a tentar dar a mãozinha + 12 Km a abandonar a ideia! ;)

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