Rir, tropeçar, avançar ... no Xévora


6 h 50 m - Nos dias anteriores alguém perguntava insistentemente à Organização qual a distância do #3 ACP trailrunning ON verão 2013 que se realizou ontem entre as 7 h e as 11 h na região raiana de Rabaça/La Rabaza. A resposta saiu célere (cerca de 20 Km) mas a utilização de advérbio tão impreciso terá gerado ainda mais insegurança em quem não sabia ainda bem se o trail running era para si próprio. Mas o fruto proibido, ou desconhecido, é o mais apetecido e a verdade é que a perspectiva de um dia tão caloroso como o da véspera (40ºC) e a necessidade de saltar da cama às 6 h da manhã não impediu que se reunissem nas piscinas de Alegrete 28 pessoas, entre as quais 6 senhoras e 3 tartarugas, algumas delas inexperientes e dispostas a arriscar dar o primeiro passo sem saber ao fim de quantos Kms ou de quanto tempo se daria o último. Combinado quantos ficavam para o almoço em Vale de Cavalos mais uma viagem de carro até à fronteira Portugal/Espanha junto a Rabaça que seria o palco dos acontecimentos.
A incerteza destes encontros free running começou logo no engano no local exacto do início. Estrada esburacada, sol nascente de frente na linha do horizonte e, quando demos por ela, estávamos já bem adiante do local que com a Vitorina definira para o começo e final já que idealizava terminar junto às cascatas da Cabroeira que seriam o epílogo feliz da sessão. Reformulação em contexto que para isso mesmo se procura conhecer antecipadamente a região.
7 h 38 m - Após a colocação do "Abastecimento" - uma caixa das fabulosas ameixas Vista do Castelo nadas e criadas em Vale de Cavalos pela mão do Alexandre Pacheco - em local fresco e seguro demos início à viagem começando por uma ascensão à Penha Amarela com passagem pelas cascatas com a intenção de primeiro as vislumbramos para no final lá regressarmos. Corrida lenta, todas as articulações rangem no início e percorrida uma milha em 16 minutos já o grupo se reunia para a primeira foto enquanto tal alcandorados sobre as famosas cascatas que a natureza resolveu colocar em terreno particular que a proprietária parece preparada para vedar. Esperemos que o bom senso e o interesse público prevaleçam ...
8 h - Breve discussão com locatária preocupada com o ruidoso rebanho de 28 alegres vozes em tudo interessadas menos em espantar o rebanho de 5 ou 6 cabras que por ali pastavam. Resolvido - em passo de corrida - o diferendo e lá continuámos rumo à Penha Amarela e a uma das partes mais espectaculares do trajecto composto nesta fase por muita vegetação e alcandorados afloramentos graníticos que cortam a respiração e fazem tremer as pernocas aos que vão um pouco mais além do seguro percurso e resolvem assomar-se para melhor ver as vistas. Mais uma foto de grupo e continuar para completarmos o primeiro 8 por trilhos repletos de vegetação, alguma espinhosa, que deixam umas tatuagens efémeras para mostrar em casa por onde se andou.
8 h 45 m - Ainda nem 6 Km percorridos e já nos encontrávamos no local de início, mesmo junto à fronteira Portugal/Espanha, à volta da melancia que o Luis Póvoas vendia a 5 € o pedaço. Ninguém sabia do preço da oferta e vá de refrescar e hidratar até esvaziar o tuperware. É este convívio e as dinâmicas das interacções pessoais que tornam estas experiências únicas e envolventes. Rir é talvez o movimento muscular mais repetido nestas nossas corridas. E não consta que alguém se lesione por rir demais ...
8 h 50 m - Entra-se finalmente no paraíso e, na primeira entrada, por longos 40 minutos. Após a travessia de La Rabaza fomos direitos ao Rio Xévora/Gévora. Sombra contínua, água enrte os joelhos e o pescoço, muita pedra escorregadia, outro mundo. É altura para pequenos filmes - a tecnologia permite-nos hoje tudo registar com facilidade - que podemos divulgar pelas redes sociais e assim multiplicar a repercussão destas iniciativas. Esta primeira incursão no Xever terminou junto a uma ponte pedonal onde se pode enfim, deitado no rio ou simplesmente sentado, descansar um pouco ...
9 h 32 m - Tanto tempo na água e à sombra que já apetecia algo assim mais ... empinado e seco. Alguém olha para a esquerda e vê, lá bem em cima, um acesso a um depósito de água. Se todos o pensaram, melhor o fizemos. Do leito pedregoso do rio à pedregosa subida com pedaços com 43% de inclinação foi ... um passo, i.e., umas largas centenas de passos. Mais uma foto de grupo e se se subiu há que descer, o que para muitas pessoas é ainda mais complicado.
10 h 58 m - Que faria se estivesse no seu cantinho de paraíso com um filhote de 2 anos, na sua vedada propriedade particular nas margens do leito de um rio, em fato de banho sobre a toalha a gozar uma descansada manhã de domingo e de repente visse irromper de dentro do rio uma ruidosa coluna nada militar com 28 almas fardadas de trail runners, com os seus fatos de hidratação, as suas meias altas e demais indumentárias próprias desta tribo do trail? Bem, o mais provável seria que sorrisse, sorrisse, sem conseguir articular palavra, o que para uma espanhola não é nada típico. Mas foi o que aconteceu num dos mais improváveis encontros da jornada.
11 h 13 m - Nova chegada ao ponto de partida após 3 h 43 m de progressão num total de 15.840 m para um desnível total de quase 1000 m. Hora de ir buscar as refrescadas e refrescantes ameixas ao Xévora e de colocar a questão: continuamos até à cascata de novo? Não, 1 h 46 m de progressão em leito de rio é água que chegue, mesmo num caloroso dia de verão alentejano/extremeño e a perspectiva de reencontrar outra vez a mal disposta tarahumara fez com que a decisão unânime fosse dar por terminada a corrida ali mesmo. Seguiu-se o regresso às piscinas de Alegrete onde mais um banho gelado e gel de banho deixou toda a gente mais que pronta para o que se seguiu, um almoço convívio onde se falou muito de UTSM, de corrida e de trail de um modo geral e, sobretudo, se perspectivou a próxima sessão, a #4 do ON, que decorrerá na zona de Castelo de Vide/Póvoa e Meadas ciceroneada pelo Carlos Bagulho.
Se, tal como nós, quiser ser tartaruga todo-o-terreno, só tem de aparecer no dia 25 de agosto, pelas 7 h, junto às piscinas de Castelo de Vide, preparado para uma autonomia total no quer que se apresente pela frente. A distância!? Não se preocupe com esse ínfimo pormenor ...


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